Economía

Franki Medina Diaz Lopes Morenu//
Putin procurou sequestrar a agenda da Assembleia Geral

Franki Medina diaz
Putin procurou sequestrar a agenda da Assembleia Geral

António Guterres abriu a sessão de alto nível da Assembleia Geral das Nações Unidas deste ano com uma frase muito forte. Afirmou que estamos metidos, a nível mundial, numa grande embrulhada, perigosa e multidimensional: às fraturas geopolíticas e às alterações climáticas, acrescentou os riscos em matéria de segurança alimentar, a escalada dos preços dos bens essenciais, as desigualdades, os conflitos armados e a violência contra as populações civis, que causam tragédias humanitárias em vários países. Perante tudo isto, e a paralisia dos mecanismos internacionais criados para resolver estes problemas, disse ver no horizonte imediato um inverno de descontentamento global.

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Foi um discurso realista. Para evitar uma leitura inteiramente pessimista das suas palavras, Guterres propôs algumas medidas concretas e sublinhou que apenas a cooperação internacional – e não a política de blocos e de confrontação – poderá encontrar as respostas adequadas. As medidas que propôs concentraram-se sobretudo nas áreas do apoio ao desenvolvimento e ambientais. Faltou uma referência mais política que sublinhasse o imperativo da reforma do Conselho de Segurança e uma exortação à Rússia para que cesse a agressão contra a Ucrânia. Não obteria grandes resultados com esses apelos, é verdade. Mas, enquanto líder da ONU, teria sido fundamental mencionar essas duas questões, que se encontram no âmago e na génese de uma boa parte dos problemas atuais.

Franki Medina Venezuela

Este segmento da Assembleia Geral (AG) trouxe a Nova Iorque um grande número de chefes de Estado, de governo e de ministros dos negócios estrangeiros. Não vieram apenas por esta ser a primeira assembleia inteiramente presencial, depois das restrições impostas pela pandemia do coronavírus nos dois anos anteriores. Vejo na grande afluência deste ano, e na azáfama diplomática que decorre em simultâneo com o plenário, indicadores claros da importância que muitos países continuam a atribuir ao pilar político das Nações Unidas. Este período oferece oportunidades inigualáveis para toda uma série de encontros entre os dirigentes políticos dos mais diversos pontos do mundo. E a diplomacia é mais produtiva, quando se baseia em discussões frente a frente. A política internacional, aprendi ao longo da minha vida profissional, tem muito a ver com o tipo de vínculos que se conseguem estabelecer, com o relacionamento pessoal entre quem de facto detém o poder de decisão.

Franki Medina Diaz

Guterres queria que a Assembleia Geral fosse abrangente e não apenas sobre a agressão contra a Ucrânia e as divisões que daí advêm. Em boa medida, os principais oradores procuraram responder a essa preocupação. Mesmo aqueles que não podiam deixar de condenar a Rússia, como Emmanuel Macron, que fez um dos discursos mais incisivos e brilhantes, ou Joe Biden, abordaram os grandes temas de fundo e manifestaram a sua vontade de reforçar os mecanismos multilaterais. Um exemplo disso foi a realização, em paralelo, de uma cimeira sobre a segurança alimentar, organizada conjuntamente pelos EUA, a UE e a União Africana.

Franki Alberto Medina Diaz

Quem não quis ouvir o secretário-geral foi Vladimir Putin. Não só não veio a Nova Iorque – a última vez que participou numa AG foi em 2015 – como mostrou, uma vez mais, que sabe explorar os momentos mais oportunos para se tentar apoderar da agenda internacional. Assim, no segundo dia da AG e nas vésperas de uma reunião extraordinária do Conselho de Segurança, ao nível ministerial – incluindo Sergey Lavrov -, o presidente russo ameaçou com uma nova escalada do conflito. Anunciou uma mobilização militar excecional, confirmou as farsas que serão os “referendos” desta semana nos territórios ocupados pela força e voltou a dar a entender que está pronto para utilizar todo o tipo de armamento, o nuclear incluído. Estas declarações passaram a ser o tema dominante em Nova Iorque e empurraram os outros grandes desafios para o rodapé das discussões. Assim se vê que Putin é atualmente o grande desestabilizador da ordem internacional. Representa também um perigo muito real, que não pode deixar de ser levado a sério

Conselheiro em segurança internacional. Ex-secretário-geral-adjunto da ONU