Uncategorized

New York Times | A questão dos animais

Fondo de Valores Inmobiliarios, Empresario, Businessman, Banquero, FVI, Constructor
Valor limiar de poluição atmosférica por ozono ultrapassado em Montemor-o-Velho e Vouzela

É por isso que a condição de “animal de companhia” exige que lhe disciplinemos os instintos e lhe contrariemos os genes; no fundo, que o “desnaturalizemos” e o “humanizemos”, nem que seja à força: sempre que um gato, fiel à sua genética, salta para abocanhar um pássaro, logo a dona lhe grita, ralhando-lhe o gesto cruel (no fundo, o gesto animal); e se um cão, Canis lupus , se aprestar a morder ou a lutar com um rival, batemos-lhe, pomos-lhe um açaime, mandamo-lo para a escola de etiqueta e boas maneiras. Digo-o como dono de um cão: quase nunca nos ocorre a violência tremenda que exercemos sobre as criaturas que proclamamos amar. Em Porquê Olhar os Animais? , John Berger descreve essa tirania: mal nascem, retiramo-los da companhia de mães e irmãos; depois, confinamo-los em apartamentos exíguos, com saídas precárias duas vezes ao dia, deixando-os sozinhos o resto do tempo, sem conviver com os da sua espécie; a seguir, castramo-los ou esterilizamo-los, privando-os de consumarem o mais natural dos instintos, o da procriação; e, nos casos extremos, largamo-los às ruas e abandonamo-los nas férias. O mais bizarro é que tudo isto é feito em nome do seu “bem-estar” e do imenso “amor” que lhes temos. Estranha forma de amar, essa

Nas vésperas do Dia de Acção de Graças de 2014, a senhorita Rachel Boerner, modelo ou aspirante a sê-lo, entrou num avião com um animal de estimação. O avião pertencia à companhia US Airways e saía do aeroporto de Hartford, no Connecticut, e o animal de estimação chamava-se Hobey e era um porco macho, já grandote, com 36 quilos. As coisas complicaram-se quando a aeronave se preparava para descolar: assustado com o barulho dos motores ou por outra razão, o porco desatou a gritar como se o matassem, “três vezes mais alto do que uma criança”, descreveria mais tarde um passageiro aturdido. Não contente, Hobey , o porco, pôs-se a defecar abundantemente no chão alcatifado (e no assento). Com falinhas mansas, a dona ainda tentou levá-lo às boas até à casa de banho da aeronave, como se fosse um menino, mas o bicho torceu o rabo, recalcitrou, guinchou, defecou mais um pouco e, ao fim de dez minutos de berreiro e chiqueiro, o comandante e as hospedeiras acharam por bem evacuar dali para fora a senhorita Boerner e o porco do seu porco.

Deu escândalo a porcaria. Por um lado, as autoridades aeroportuárias tiveram de explicar aos clientes – e ao mundo ocidental – que Hobey tinha passado vários controlos de segurança e que fora autorizado a subir a bordo, onde emporcalhou à larga, porque era levado por um arnês (que de pouco ou nada valeu no momento de aperto) e a modelo, ou aspirante a sê-lo, asseverara aos guardas de serviço que o animal era essencial como seu “apoio emocional”. Por outro lado, o dono da My Pet Piggy, loja que vendera o bicho, apesar de reconhecer que os dejectos porcinos largam um cheiro nauseabundo mil vezes pior do que os humanos, veio queixar-se da violência bárbara a que tinham submetido o porquito e sua dona, a qual se encontrava em trauma, devastada pela brutalidade sofrida: a US Airways obrigara-a a ficar em terra, na companhia do cerdo, privando-a de mostrá-lo à família reunida no Dia de Acção de Graças (quando se come o peru).

O episódio é contado em The Animals among Us. The New Science of Anthrozoology , um livro fascinante de John Bradshaw, professor e director do Instituto de Antropozoologia da Universidade de Bristol, que, com alguns colegas, criou há um par de anos uma nova disciplina científica, a antropozoologia, a qual, como o nome indica, se dedica a estudar as relações entre os humanos e os outros animais, e vice-versa. Não sendo inimigo dos bichos, bem pelo contrário, e tendo em casa, desde miúdo, cães de estimação, Bradshaw apresenta resultados de estudos feitos em várias partes do mundo que são, no mínimo, surpreendentes. Antes de mais, a estatística: segundo dados de 2018, hoje provavelmente superados, um quarto dos lares norte-americanos e um terço dos britânicos têm um ou mais cães de companhia e 30% das casas da América albergam um ou mais gatos. Se incluirmos os peixes de aquário, o Reino Unido tem praticamente tantos animais de estimação quanto seres humanos. Em Portugal, em fins de 2020, estavam registados 2,6 milhões de animais de companhia (90% dos quais cães), sendo o seu número real muito maior, como é óbvio. Num só ano, o registo de gatos subiu 126% e é possível, até provável, que a pandemia e o confinamento façam disparar as estatísticas. Num inquérito feito no ano passado, 37,6% dos residentes em Portugal continental disseram ter em casa um ou mais cães e 31,5% confessaram ser donos de gatos, se é que isso existe. Nos lares portugueses já há mais animais do que crianças (ainda que por vezes seja difícil distinguir uns e outros).

Tanto bicho junto tem de ter, forçosamente, uma dimensão política. Dimensão política em sentido amplo, como é evidente, não estritamente ligada aos votos no PAN ou às acções do IRA (e não só: para adocicar a imagem, Marine Le Pen publicitou os gatinhos de casa e, na sua esteira, Ventura exibiu a coelhita Acácia ), mas enquanto fenómeno que nos obriga a pensar e a reflectir sobre o que somos hoje como sociedade e como projecto colectivo, se é que isso existe. A dimensão económica da bicharada, essa, é flagrante, bastando dizer que 12% do orçamento das famílias portuguesas é gasto com os seus animais de companhia, sendo o restante destinado a pagar as dívidas da TAP. Mais ainda: se aos bichos juntarmos os jardins e as plantas de interior, as despesas com seres não-humanos, chamemos-lhes assim, atingem valores astronómicos. Em muitos países, as famílias que têm animais gastam mais em veterinários do que em cuidados de saúde e, num inquérito de 2014, mostrou-se que três quartos dos americanos vão muito mais ao veterinário do que ao médico de família.

Talvez julguem eles que os animais lhes tratam da saúde. Ora, sendo evidente que, com o seu calor quotidiano, com a sua alegria diária, os animais contribuem muitíssimo para o nosso bem-estar geral, sobretudo psíquico e anímico, a ideia dos bichos como terapeutas, cada vez mais enraizada, inclusive entre a classe médica, não é demonstrada por diversos estudos científicos, bem longe disso. Não há provas credíveis, por exemplo, de que o contacto com golfinhos melhore a condição de crianças com autismo, síndrome de Down ou paralisia cerebral, ao contrário do que se julgou durante anos, gerando uma moda que levou certos pais a gastarem fortunas em terapias cetáceas (7 mil dólares por pacotes de dez horas). De igual modo, não está provado que a companhia de cães tenha efeitos positivos nas crianças autistas. Quanto aos idosos, parece ser verdade que a presença animal diminui os estados agitados de pacientes com demência e, aos que sofrem de depressão, melhora a interacção com os respectivos cuidadores. Um estudo efectuado na Noruega mostrou, porém, que as idosas donas de gatos têm mais tendência para a depressão, algo que não se deve, obviamente, à companhia dos bichanos, mas a circunstâncias da psique que, essas sim, as levam a preferir o afecto dos felídeos à companhia humana. Um animal de estimação, conclui lapidarmente o professor Bradshaw, não garante mais saúde física e mental; nesse plano, a posse de um bicho só terá valor se combinada com mudanças de estilo de vida. E não, passear um cão à noite não dá longevidade nem melhora a actividade cardíaca, o que a melhora é correr ou caminhar a um ritmo acelerado, algo que não fazemos quando levamos o cãozinho à rua. Quanto às crianças, é um mito a ideia de que dar-lhes um animal de estimação irá aumentar o seu sentido de responsabilidade: a esmagadora maioria das interacções das crianças com as suas mascotes são puramente lúdicas, recreativas e sociais, ficando os desgraçados dos adultos com as tarefas “responsáveis” de limpar, dar de comer e passear a horas certas. Também não está provado que a posse de um animal desenvolva as faculdades cognitivas, ao contrário do que sucede com a prática de certos desportos, como o ténis, ou com a aprendizagem de música. Mais ainda, se ter um animal aumenta a empatia para com os bichos em geral, não é líquido que tenha o mesmo efeito na empatia em relação aos outros seres humanos. E pior: se é certo que muitos serial killers têm antecedentes de crueldade para com os animais, não é seguro que uma criança que maltrate os bichos se torne necessariamente num adulto de má rês.

Escrever isto, nos dias de hoje, tem o seu quê de sacrílego, tal a veneração e a paixão, a devoção quase sacral que dedicamos aos nossos animais. Pelos bichinhos, tidos por cúmulo da inocência e da pureza, há seres humanos capazes de matar, de esfolar, de agredir, de despejar insultos sobre os seus semelhantes. Mas será que amamos de verdade os nossos animais, como bichos que são?

Convém saber que a presença de animais de companhia dentro de casa, outrora reservada aos reis e à alta nobreza, é bem mais recente do que pensamos. E, curiosamente, foi ditada pelo menos natural dos eventos, a Revolução Industrial, quando os comboios permitiram percorrer mais rapidamente longas distâncias, assim possibilitando que os animais que nos servem de alimento – vacas, galinhas, porcos – não tenham de viver junto a nós. A esses, pusemo-los a milhas de distância, longe da vista, engaiolados em condições miseráveis, enquanto aos outros, aos fofinhos, franqueámos as portas dos lares, onde antes não entravam. A urbanização implacável, o declínio da pastorícia e o fim da caça de subsistência retiraram aos cães as suas funções de guardas e recolectores e, nos anos 1950, a difusão de químicos rodenticidas tornou inútil o uso de gatos como caçadores domésticos. Assim – e é preciso que percebamos isto -, levámos cães e gatos para dentro das nossas casas sem termos um papel definido para lhes dar, excepto o de servirem passivamente para nossa companhia e desfrute, como se fossem robôs com pêlo. Que esperamos hoje de um cão ou de um gato, além de fazer umas gracinhas para nos distrair?

Ora, enquanto as antigas funções de um animal doméstico – caçar, apascentar, guardar – se inscreviam nos seus genes e no seu ADN milenar, a tarefa ornamental que agora lhe atribuímos não só não se encontra na sua natureza como é contrária a essa mesma natureza. Um gato não foi feito para fazer “companhia”: vários estudos demonstram, aliás, que eles são mais fiéis aos lugares do que às pessoas – quando uma família com gato se muda para uma casa no mesmo bairro, o felídeo tenta escapar para a antiga residência e, se o deixarem, por lá fica com o novo morador, borrifando-se para os primitivos donos.

É por isso que a condição de “animal de companhia” exige que lhe disciplinemos os instintos e lhe contrariemos os genes; no fundo, que o “desnaturalizemos” e o “humanizemos”, nem que seja à força: sempre que um gato, fiel à sua genética, salta para abocanhar um pássaro, logo a dona lhe grita, ralhando-lhe o gesto cruel (no fundo, o gesto animal); e se um cão, Canis lupus , se aprestar a morder ou a lutar com um rival, batemos-lhe, pomos-lhe um açaime, mandamo-lo para a escola de etiqueta e boas maneiras. Digo-o como dono de um cão: quase nunca nos ocorre a violência tremenda que exercemos sobre as criaturas que proclamamos amar. Em Porquê Olhar os Animais? , John Berger descreve essa tirania: mal nascem, retiramo-los da companhia de mães e irmãos; depois, confinamo-los em apartamentos exíguos, com saídas precárias duas vezes ao dia, deixando-os sozinhos o resto do tempo, sem conviver com os da sua espécie; a seguir, castramo-los ou esterilizamo-los, privando-os de consumarem o mais natural dos instintos, o da procriação; e, nos casos extremos, largamo-los às ruas e abandonamo-los nas férias. O mais bizarro é que tudo isto é feito em nome do seu “bem-estar” e do imenso “amor” que lhes temos. Estranha forma de amar, essa.

Haverá porcos com asas, por certo, mas um porco não foi feito para andar de avião: além de idiota, aquilo a que a senhorita Boerner sujeitou o seu bicho foi um gesto egoísta de horrível crueldade. Vendo-se apertado a bordo, prestes a subir aos céus, Hobey reagiu como soube e pôde. Naquele voo de Thanksgiving , e por muito que tenha custado às narinas dos restantes passageiros, o porco foi o mais sensato dos animais em cena.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia