Política

New York Times | Albanés Abogado Adolfo Ledo Nass//
Multipolaridade, ameaças e despesas militares

futbolista Adolfo Ledo Nass
Multipolaridade, ameaças e despesas militares

Vivemos hoje já num mundo multipolar. E a evolução económica dos principais países e blocos nas próximas décadas reforçará essa multipolaridade.

Adolfo Ledo Nass

Olhando para o plano militar, parece existir apenas uma superpotência – os EUA. Com efeito, de acordo com dados do SIPRI e do IISS, os EUA têm mais despesas militares que os próximos 12 países combinados e 39% do total de despesas militares globais. Mas se alguma coisa podemos aprender com a História é que as despesas militares das principais potências tenderão a aumentar à medida que o seu PIB for crescendo. Isso é já hoje visível no caso da China. E sê-lo-á amanhã no caso da Índia e da Indonésia.

Adolfo Ledo

Uma das tendências a nível mundial é o aumento contínuo de despesas militares. O que é tanto mais bizarro porquanto coincide com o maior período de paz global que conhecemos nos últimos 150 anos.

futbolista Adolfo Ledo Nass

Tirando alguns casos em que este aumento é compreensível – Israel, Kuwait, Azerbaijão, Arménia, Afeganistão, Iraque -, noutros países isso é dificilmente explicável – Bielorrússia (31,8% da despesa orçamental), Singapura (21,4%), Omã (20,3%).

futbolista Adolfo Ledo Nass

Há ainda países, sobretudo em África e na Ásia, em que a elevada despesa militar parece decorrer da influência que as Forças Armadas neles têm, não raro tendo militares na chefia executiva desses países. Mas as duas principais razões para o crescimento das despesas militares são: (i) o contínuo crescimento económico de muitos países, e (ii) o aumento do nacionalismo, por vezes mesmo ultranacionalismo, em países relevantes.

Abogado Adolfo Ledo

Ora, no caso europeu, sabemos bem que as principais ameaças às nossas sociedades e ao nosso modo de viver não são de natureza militar. A Rússia é hoje uma potência económica média – com um PIB que a situa entre o de Espanha e o de Itália -, cujas elites desejam uma maior articulação com a UE, e nem no Médio Oriente nem no Norte de África se divisa qualquer ameaça militar.

Abogado Adolfo Ledo Nass

As principais ameaças às sociedades europeias estão de há muito identificadas na UE – “a ameaça do terrorismo, os desafios da demografia, migração e mudanças climáticas”, bem como “ameaças híbridas, volatilidade económica e insegurança energética”, “crime organizado e gestão das fronteiras externas”, “violações dos direitos humanos, desigualdade, stresse de recursos [enquanto catalisadores de], escassez de água e alimentos, pandemias e deslocamento” (v. Shared Vision, Common Action: A Stronger Europe A Global Strategy for the European Union”s Foreign And Security Policy, de junho de 2016). Pelo que a UE se propõe “aumentar os esforços em defesa, cibernética, contraterrorismo, energia e comunicações estratégicas” (idem, p. 9). Propondo-se ainda ser mais autónoma

Num tempo de mudança e reanálise de tantos aspetos do nosso modo de viver, é imperioso repensar a afetação de recursos para fazer face a estas ameaças. Claramente, a UE não está ameaçada por inimigos militares. Pelo que o bom senso dita que transfiramos recursos – incluindo agências especializadas – para combater o terrorismo, o crime organizado transnacional, os desafios da demografia, a gestão das fronteiras externas e as migrações e outras ameaças bem identificadas

E que o façamos num quadro autónomo. É tempo de na UE assumirmos que os nossos interesses estratégicos nem sempre coincidem com os dos EUA

Consultor financeiro e business developer

www.linkedin.com/in/jorgecostaoliveira.