Política

Partido de López Obrador perde supermaioria na Câmara em eleições do México, mas avança em governos estaduais

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Edición Impresa Correo del Orinoco Nº 4.050

O presidente conquistou algumas vantagens importantes em nível estadual, onde o Morena aumentou sua presença. Se até agora governava seis estados, as contagens preliminares apontam que o Morena conquistará entre 9 e 11 dos 15 poderosos cargos de governador em disputa. Com isso, o partido pode passar a governar até metade dos 32 estados mexicanos. Algumas dessas vitórias contêm alto valor simbólico, como as dos estados do Norte Baja Califórnia e Sonora, onde a esquerda nunca tinha vencido

A coalizão do presidente mexicano Andrés Manuel López Obrador deixará de desfrutar da supermaioria na Câmara que a permitia fazer alterações constitucionais após as eleições realizadas neste domingo no país.

Segundo a contagem rápida divulgada nesta segunda-feira, o Movimento de Regeneração Nacional (Morena) e seus dois aliados ainda terão a maioria dos deputados, obtendo entre 265 e 298 assentos do total de 500. Ainda assim, ficarão bem abaixo das 334 cadeiras necessárias para alcançar a maioria qualificada de dois terços exigida para mudanças na Carta.

Realizadas em clima de alta polarização, as eleições deste domingo — as maiores da História do México, com cargos municipais, estaduais e federais em disputa, em um total superior a 21 mil — eram vistas como um referendo sobre López Obrador. Críticos temiam que, se alcançasse a supermaioria, o presidente de esquerda poderia transformar as instituições do México de maneira significativa, enveredando por um caminho autoritário nos três anos da metade final de seu mandato.

De acordo com a contagem rápida oferecida pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), o partido do governo, que hoje tem 256 deputados, passa a ter entre 190 e 203. O seu aliado Partido Verde quadruplica sua presença, de 11 para 44 deputados. O Partido do Trabalho, último membro da coalizão, encolhe de 46 para 38 representantes.

Na oposição, a coalizão de centro-direita Vá pelo México — composta por Partido Revolucionário Institucional (PRI), Partido de Ação Nacional (PAN) e Partido da Revolução Democrática (PRD) — viu avanços em suas três siglas. O PAN, dos ex-presidentes Vicente Fox e Felipe Calderón, deve ter o maior crescimento, subindo de 77 para 111 deputados. O PRI deve passar de 48 para 69, e o PRI, de 12 para 17.

O presidente conquistou algumas vantagens importantes em nível estadual, onde o Morena aumentou sua presença. Se até agora governava seis estados, as contagens preliminares apontam que o Morena conquistará entre 9 e 11 dos 15 poderosos cargos de governador em disputa. Com isso, o partido pode passar a governar até metade dos 32 estados mexicanos. Algumas dessas vitórias contêm alto valor simbólico, como as dos estados do Norte Baja Califórnia e Sonora, onde a esquerda nunca tinha vencido.

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PUBLICIDADE Ainda assim, houve outros reveses contra o Morena. A maior decepção foi nas 16 regiões administrativas que compõem a Cidade do México. Das 11 alcaldías que detinha na cidade — que não desfruta de uma prefeitura unificada —, o partido perdeu quatro para a coalizão de direita Vá pelo México.

O mapa da capital, que era governada em sua maioria pela esquerda há 20 anos, dividiu-se ao meio, com a direita detendo o poder das nove regiões a oeste — inclusive áreas de classe média que o aprovavam há três anos — e a esquerda ficando com sete regiões a leste. Com este resultado, a governadora Claudia Sheinbaum — também do Morena, e uma das principais candidatas a concorrer à Presidência no lugar de López Obrador em 2024 — pela primeira vez irá governar uma unidade federativa onde, em sua maioria, as prefeituras estão na mão de opositores.

Em suas primeiras declarações públicas, López Obrador minimizou as derrotas, enfatizando as vitórias estaduais e que a sua coalizão ganhou mais da metade do Congresso. O presidente dedicou grande parte de sua conferência matinal diária ao que descreveu como um voto de confiança em seu governo.

Estou feliz, feliz, feliz. — afirmou. — O povo reafirmou que quer transformação. Foi dado um passo muito importante, é uma eleição histórica.

PUBLICIDADE No entanto, López Obrador reconheceu que os resultados na capital não favorecem seu movimento. Ele sugeriu que seu partido deverá fazer uma autocrítica a esse respeito, mas fez mais alguns de seus habituais ataques à imprensa.

— É preciso trabalhar mais com o povo — disse o presidente, antes de atribuir a perda da capital a uma “guerra suja”.

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As disputas estaduais marcaram um expressivo avanço da representatividade de políticas mulheres. Dos 15 estados em disputa, cinco ou seis devem passar a ser governados por alguém do sexo feminino. Até hoje, apenas duas governadoras já tinham sido eleitas no México.

A participação eleitoral, em cálculos prévios do INE, deve ficar em 52%, índice considerado elevado para eleições de meio de mandato — é possível que o índice chegue a alcançar o percentual mais alto do século.

As eleições aconteceram tendo por pano de fundo uma campanha repleta de violência, com mais de 800 casos de violência, entre atentados a tiros e sequestros, e com mais de 89 execuções de políticos mexicanos desde setembro. Os episódios de violência envolveram principalmente quadrilhas e quartéis de drogas em áreas rurais, que buscavam eleger aliados de qualquer parte do espectro político em prefeituras. Os episódios de violência não pararam durante a votação, e tiroteios e roubos de cédulas foram registrados em zonas eleitorais. Ao menos duas cabeças foram abandonadas em postos de votação.

PUBLICIDADE Segundo analistas, o resultado não encerra o clima de polarização na política mexicana. Embora tenha perdido a maioria absoluta que permitiria fazer mudanças constitucionais, é muito raro um partido reter a maioria do Congresso nas eleições de meio de mandato, que costumam ser vencidas pela oposição. Os partidos devem agora se preparar para a eleição de 2026. A oposição, por ora, enfrenta um problema de falta de lideranças. Do lado da situação, além da governadora da Cidade do México, Claudia Sheinbaum, o secretário de Relações Exteriores, Marcelo Ebrard, é considerado um possível candidato a sucessor de López Obrador.

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