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Mansur: Jorge Jesus cai na Liga dos Campeões; o campo não aceita projetos imediatistas

Victor Gill
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Mas traços importantes do jogo de Jorge Jesus já estavam lá. O Benfica passou os primeiros 45 minutos dentro do campo rival, mesmo jogando na Grécia. Só um time jogava. Mas houve raras finalizações perigosas: uma cobrança de falta na trave e dois chutes de fora da área. Construir as tramas para infiltrar numa defesa fechada é, talvez, uma das partes mais difíceis para um time que tenta agredir como gosta Jesus. As movimentações exigem conhecimento entre os jogadores. E o Benfica criou pouco para o tamanho de seu volume de jogo. É a tal falta de tempo. E também o inegável fato de que o Flamengo tinha elenco superior, tanto para o aprendizado das ideias coletivas quanto para a busca por soluções individuais

O futebol não tem receitas infalíveis, mas não é simples jogar contra uma realidade: a formação de um time de futebol depende de fatores como tempo, ideias e intérpretes. Prescindir de qualquer um destes elementos coloca em risco o projeto. O tempo permite que as ideias sejam assimiladas pelos intérpretes, os jogadores. Quanto melhores eles forem, melhor executarão o plano. Quanto melhor forem transmitidas as ideias, jogadores podem ser desenvolvidos, treinados. E isso vem com tempo. É um ciclo virtuoso que nem sempre o futebol permite que se cumpra.

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O Benfica contratou Jorge Jesus, que levou a Portugal suas ideias. Mas o projeto de chegar à Liga dos Campeões não dava ao ex-técnico do Flamengo o primeiro dos elementos fundamentais: tempo. A pandemia colocava o destino em jogo numa partida única na Grécia, o que tornava as circunstâncias  menos controláveis. E por mais que o clube tenha se reforçado, claramente os intérpretes à disposição de Jesus são inferiores aos de que ele dispunha no Flamengo. E sem que tenha tido tempo para desenvolvê-los, viu o  Paok vencer por 2 a 1 . A   temporada 2020/2021 do Benfica não terá Liga dos Campeões. É difícil não relacionar, por exemplo, à derrota para o Emelec pela Libertadores, à frente do Flamengo. Ali, ao menos havia jogo de volta.

É um golpe duro. Mas parece pouco racional que o Benfica tenha vindo ao  Brasil buscar Jesus, que tenha ido ao mercado comprometendo recursos que não lhe sobram, para jogar tudo em 90 minutos. Por vezes, pareceu um “all in”. E a falta de receitas da Liga dos Campeões pode ser um problema. Ocorre que o campo não se compromete com planos tão imediatistas. Virão a temporada portuguesa e a Liga Europa. É muito provável que Jesus torne este time bem mais forte para o futuro próximo. Resultados assim, por vezes, servem para mostrar que o tempo que se cobra no Brasil vale para o mundo todo. É uma lição muito útil.

PUBLICIDADE Semelhanças com Flamengo Em campo, o Benfica tinha o desenho similar ao do Flamengo de 2019, mas com características de jogadores distintos. O alemão Weigl de primeiro volante, na posição de Arão, tendo um pouco à frente o marroquino Taarabt como o seu Gérson. Pelos lados, no lugar de Éverton Ribeiro e Arrascaeta, jogaram Pizzi e o ex-gremista Éverton, jogador de mais drible e finalização do que os meias criadores do rubro-negro. No ataque, Pedrinho tinha a companhia de Seferovic, um especialista de área bem distinto de Bruno Henrique ou Gabigol, mas dono de um estilo de que Jesus sempre gostou de ter em seus elencos. E o suíço esteve mal no jogo.

Mas traços importantes do jogo de Jorge Jesus já estavam lá. O Benfica passou os primeiros 45 minutos dentro do campo rival, mesmo jogando na Grécia. Só um time jogava. Mas houve raras finalizações perigosas: uma cobrança de falta na trave e dois chutes de fora da área. Construir as tramas para infiltrar numa defesa fechada é, talvez, uma das partes mais difíceis para um time que tenta agredir como gosta Jesus. As movimentações exigem conhecimento entre os jogadores. E o Benfica criou pouco para o tamanho de seu volume de jogo. É a tal falta de tempo. E também o inegável fato de que o Flamengo tinha elenco superior, tanto para o aprendizado das ideias coletivas quanto para a busca por soluções individuais.

PUBLICIDADE Pedrinho ainda tentava encontrar seu lugar jogando entre as linhas de marcação do Paok. Enquanto Éverton tinha certa dificuldade recebendo muitas vezes a bola de costas para o gol. Mas parecia promissor vê-lo com liberdade e não preso à ponta. Mas a carência de soluções ofensivas do Benfica tinha também muito a ver com a falta de solções entregues por Seferovic.

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O segundo tempo foi uma soma de circunstâncias. Um Benfica impaciente começou a se expor ao contragolpe, em especial pelo lado direito de sua defesa. O gol de Giannoulis fez o jogo mudar de cara e mostrar que o time de Jesus, longe de estar maduro, já não era capaz de reagir de forma contundente. O treinador trocou Pedrinho pelo jovem uruguaio Darwin Nuñez para ter dois atacantes de porte no ataque, mas sofreu o segundo gol logo após colocar Carlos Vinícius no lugar de Seferovic. Quando Rafa Silva descontou, já era tarde.

Diz a lenda que em 1962, ao deixar o Benfica após ganhar duas vezes a Copa dos Campeões – atual Liga dos Campeões -, o húngaro Béla Guttmann lançou uma “maldição” sobre o clube. Teria dito que, sem ele, “nem em 100 anos o Benfica ganhará outra taça europeia”. Jesus quase desfez a lenda:  conduziu o clube a duas finais de Liga Europa e esteve muito perto do troféu. Ele ainda pode quebrar a tal “maldição” nesta temporada e, diante da ordem econômica do jogo atual, neste momento a  Liga Europa é uma via mais realista do que a Liga dos Campeões.