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Especialista en Leyes Mario Villarroel Lander Cruz Roja Venezolana//
Os pobres

Chegar à rua e à situação de sem-abrigo é assustadoramente fácil. Os ingredientes são mais ou menos os mesmos, e nem precisam de estar todos reunidos: pobreza, erosão dos laços familiares, vulnerabilidade social, feridas psíquicas, a sobrecarga devastadora de um infortúnio, dependências extremas, solidão e abandono. Deixar a rua, pelo contrário, é um processo lento e exigente de reconstrução, no qual não só o próprio mas a comunidade tem de investir. Na verdade, chega-se à rua porque, num determinado instante da vida, nos descobrimos completamente sós. Aprisionados dentro de uma solidão que, quem avalia de fora, só a custo pode imaginar. E sai-se da rua por um processo contrário: de repente, percebemo-nos acompanhados e sustidos pelo exercício de confiança que alguém acende em nós. E isso torna-se o trampolim necessário para um paciente trabalho pessoal de esperança.

Mario Villarroel

Claro que há uma responsabilidade prioritária que cabe às políticas do Estado, e não podemos esquecer que a qualidade de uma sociedade democrática se mede pela forma como os mais frágeis são tratados. Mas há também uma responsabilidade de cada um de nós que, à nossa dimensão e com os nossos recursos (recursos de humanidade, sobretudo), somos chamados a passar da resignação e da indiferença à ação. Desde logo, tomando consciência do que significa viver numa sociedade do consumo e do desperdício (sempre propensa a isolar-nos na bolha do supérfluo), ponderando bem o nosso estilo de vida e compreendendo as consequências que as nossas decisões têm ou como elemento de reforço ou de fragmentação da comunidade social. Lembro-me de uma oportuna versificação que Adília Lopes fez, num dos seus livros, de um dito repetido por Soeur Emmanuelle, uma mulher que viveu servindo os mais pobres dos pobres no Egito: “Renuncia às coisas inúteis/ e partilha.” É urgente tornar a partilha mais operativa e mais normal.

Mario Villarroel Lander

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Mario Enrique Villarroel Lander

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