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O silêncio de quem está cansado e não tem para onde ir. Dois navios de resgate procuram porto seguro no Mediterrâneo

Silêncio. Ouve-se pouco mais do que o mar, do que o casco a rasgar as ondas do Mediterrâneo. Há 356 pessoas ali e há silêncio. Alguns miúdos brincam no convés, deram-lhes lápis e papel para desenhar e estão entretidos. Mas há silêncio. Os mais velhos sentam-se nos espaços vazios e são poucas as conversas. Estão cansados, demasiado cansados para fazer o normal barulho de centenas pessoas juntas num pequeno espaço. Todas estas 356 pessoas foram resgatadas do Mediterrâneo na última semana e estão a bordo do Ocean Viking, o navio operado em conjunto pelos Médicos Sem Fronteiras e a pela SOS Mediterranée. É o silêncio de quem está cansado e não tem para onde ir.

“As crianças estão a brincar no convés mas sinto um ambiente super calmo à minha volta. Significa que estão todos muito, muito cansados e que precisam de descanso”, descreve Luca Pigozzi, médico dos MSF. “A informação que temos é a de que estiveram no mar vários dias, por isso estão absolutamente exaustos.”

Na sexta-feira, pela manhã, 85 pessoas foram resgatadas. No dia seguinte, à hora de almoço, outras 85. Vinte e quatro horas depois, mais 85 e esta segunda-feira, durante a tarde, mais 105 pessoas foram tiradas do Mediterrâneo e levadas para bordo do navio. Todas estavam em águas internacionais ao largo da costa da Líbia em barcos de borracha. Todas tinham o mesmo objetivo: chegar à Europa.

Hannah Wallace Bowman/ imagem cedida pela MSF

As histórias dos seus passados cruzam-se, não que se conheçam mas porque passaram quase todos pelo mesmo: fugiram dos países de origem rumo à Líbia, onde muitas vezes acreditam que podem melhorar as suas vidas mas, sobretudo, porque sabem que ali estão mais perto da Europa. Quase todos viveram momentos de tortura e violência.

“As pessoas, incluindo os menores de idade, descreveram situações de tortura com choques eléctricos, com paus e queimaduras com plásticos derretidos. Contam-me como sentiam a dor das feridas e como ficaram com cicatrizes dos tempos que viveram na Líbia”, conta Luca Pigozzi.

Entre as pessoas resgatadas há 103 menores de idade, só 11 estão acompanhados por um adulto. O mais novo tem um ano.

Entre os sobreviventes estão pessoas com perturbadores sinais de terem experienciado violência física e psicológica durante o seu percurso. A verdade é que a Líbia está em guerra e há muitos migrantes e refugiados presos em centros de detenção”, diz Jay Berger, coordenador dos MSF no Ocean Viking.

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Hannah Wallace Bowman/ imagem cedida pela MSF

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Hannah Wallace Bowman/ imagem cedida pela MSF

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Hannah Wallace Bowman/ imagem cedida pela MSF

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Avra Fialas/ imagem cedida pela MSF

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Hannah Wallace Bowman/ imagem cedida pela MSF

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Hannah Wallace Bowman/ imagem cedida pela MSF

Médicos Sem Fronteiras e SOS Mediterranée garantem que, apesar dos pedidos de ajuda, a Guarda Costeira líbia, que coordena as operações de resgate naquela zona do Mediterrâneo, não respondeu. O único contacto possível foi para que o Ocean Viking levasse as pessoas de novo para a Líbia. “Não as levamos para lá seja em que circunstância for”, garantem ambas as organizações.

Sem porto seguro atribuído, o Ocean Viking vai seguir para norte.” Sem garantias, seguem para a Europa. “Só pedimos um lugar seguro para as pessoas desembarcarem. Já sofreram que chegue.”

500 pessoas sem destino A somar às 356 pessoas resgatadas pelo Ocean Viking, há mais 151 que estão a bordo do Open Arms, um dos raros navios operados por organizações não governamentais que ainda consegue levar a cabo as operações de resgate e salvamento no Mediterrâneo.

Ver Twitter O navio da Open Arms está há mais de uma semana no Mediterrâneo central à espera de uma indicação de um porto seguro para atracar, tendo já pedido ajuda formal a Espanha, França e Alemanha. Durante o fim de semana, Malta mostrou-se disponível para receber 39 destes migrantes, o que ainda não se concretizou.

O navio está ao largo da ilha italiana de Lampedusa e foi impedido de atracar nos portos de Itália e Malta.

Por agora, ainda não há solução para nenhum deles. Ao contrário do que tem acontecido nos últimos casos, até esta segunda-feira ainda não tinham chegado a Bruxelas quaisquer manifestações formais dos Estados-membros para receber estas pessoas. À falta de um acordo da União, vários países – incluindo Portugal – têm-se voluntariado para receber parte das pessoas que são resgatadas no Mediterrâneo por navios de organizações não governamentais.